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29 março, 2011

Voz Pejoteira - Pâmela Grassi

Das Marias, Marilzas, Nelis e Davis – Canto de Um Povo de Um Lugar.

Meu nome é a Pâmela e esta é a minha história de vida. A vontade de participar do EIV (Estágio Interdisciplinar de Vivência) num outro estado – no caso o Rio de Janeiro – perpassou e perpassa a mística da estrada: em cada manhã, em cada tarde, em cada noite de corujas e mosquitos, é necessário recolher pequenas histórias de vida pelo caminho. Histórias de pessoas que exigem o despertar da indignação. Histórias de mulheres e homens simples, que se colocaram à disposição dos caminhos coletivos. Histórias de quem, com mãos calejadas e coração acolhedor, semeia a solidariedade. A etapa de vivência do EIV foi assim, construída a partir das memórias vivenciadas ao longo do caminho. Encarnadas, pois entraram em mim e me fizeram parte delas.

A casa da Madre Marilza, localizada no assentamento Zumbi dos Palmares IV, foi minha moradia durante os 10 dias de vivência. Ali re-descobri a bicicleta: era um dos meios de transportes mais valiosos e usufruídos pelos moradores e moradoras. A mesma bicicleta que me remetia à infância e me deslocava de um lote para outro era a mesma que percorria a estrada e recolhia as histórias de vida pelo caminho. Nos dois últimos dias foram 70 km de pedaladas, alegrias e partilhas. Dona Marilza, mulher assentada há cerca de 5 anos, planta um coqueiro cada vez que ganha uma neta ou um neto. Conta ela que depois de 3 anos o coqueiro plantado satisfaz a alegria deles com muita água. Uma de suas netas é Tuani, com quem vive junto. Dona Marilza, mulher trabalhadora e sonhadora trabalha com Fitoterapia: conhece muito bem a terra, seu saber e as propriedades das plantas. Madre Marilza já foi parteira e tem um longo conhecimento sobre as fases da lua e de como elas participam do ciclo das mulheres e da agricultura. Hoje sua contribuição para o Movimento das Trabalhadoras e dos Trabalhadores Sem Terra está na elaboração de remédios naturais para acampados e acampadas e na partilha de alimentos que a terra gera.

Dona Neli, mulher assentada do Dandara dos Palmares, é outra fitoterápica e lutadora. Talvez o refrão “Quando chegar na terra, lembre de quem quer chegar, quando chegar na terra, lembre que tem outros passos pra dar” possa traduzi - lá. Insiste no desafio do trabalho de base, da conscientização política das assentadas e dos assentados. Sua insistência de transformar a sociedade perpassa na crença do Jesus Cristo perseguido político e revolucionário.

Davi, assentado do Che Guevara, nos contou muitas histórias dos excluídos e das excluídas da região de Campos dos Goytacazes. Uma delas é de Carukango, escravo que lutou pela liberdade de seus irmãos e de suas irmãs escravizados. Davi, de estatura pequena, mas de sonhos do tamanho da Esperança, teima em participar da construção de um acampamento que carregue o nome do quilombola.

As histórias de Madre Marilza, Dona Neli e Davi perpassam o ITERRA. Quando contavam as histórias no tempo que estudaram no instituto, as lembranças e os cheiros da Serra Gaúcha lavavam-me de saudade. Marilza e Neli formaram-se em Técnicas em Saúde Comunitária, já Davi em Administração de Cooperativas. Outro tecido em comum é a localização de seus assentamentos: o município de Campos dos Goytacazes. Ele é marcado pelo conservadorismo, latifúndio, desigualdade e todas as outras palavras que revelam a exploração do homem pelo homem. É o município do Estado do Rio de Janeiro com o maior número de latifúndios (cana de açúcar, principalmente) e de trabalho escravo, o último a acatar a abolição da escravidão e o berço da organização católica ultraconservadora Tradição, Família e Propriedade (TPF). A resistência contra esta cerca latifundiária, escravocrata e desumana são as vidas de Marilza, Neli, Davi e tantas outras vidas Sem Terra. Como a canção nos fala, tomaram a história pelas próprias mãos.

Estas e outras histórias foram recolhidas durante a vivência. Como cada retalho de tecido costura a coberta, cada história de vida escreve nosso corpo de valores, sonhos e possibilidades. O estágio re-encantou a caminhada na militância. Dona Maria, assentada do Josué de Castro, nos contou que quando somos Sem Terra não nos falta nada, pois tudo é partilhado. A vivência com as e os sem terra trouxe a certeza de uma vida concretizada nos caminhos coletivos. Que é urgente despertar a rebeldia que mora nas pessoas, mas que o sistema do capital, com suas televisões, sorrisos de creme dental, moralismos religiosos, escritórios e gravatas, trata de escondê-la. É urgente voltarmos para nossas comunidades e com sentimento de pertencimento à luta nos colocarmos a disposição da organização criativa e rebelde do povo! Nesta vivência mora a Sem (ente) Terra. Meu nome é Pâmela e estas são as histórias de vidas que me costuraram.



Pâmela Grassi,
Caminheira, lavrandeira, poetisa, militante da Pastoral da Juventude de Caxias do Sul-RS.




E-mail: pamelagrassi@gmail.com
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Um comentário:

  1. ola muito show seu blog muito leve bom de ser ver e ler eu ja passei a ser seu seguidor se quiser seguir o meu agradeço
    abraços e muito sucesso na vida
    http://audienciadatvrealtimes.blogspot.com/

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